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Carta de uma mãe órfã no Dia dos Pais

  • 11 de ago.
  • 3 min de leitura

Arte de blog para a série “Cartas para minha filha”, com o título “Carta de uma mãe órfã no Dia dos Pais”. A composição mostra uma mesa com livros, carta manuscrita, caneta, café, flores secas e uma fotografia antiga de pai e filha. A frase “Eu era a gatinha do papai. Você é a gatinha da mamãe.” aparece em destaque, em uma estética acolhedora e nostálgica.


Quando eu pensava no meu futuro, eu sempre via meus pais como avós dedicados e amorosos, e eu fico feliz de saber que pelo menos metade desse sonho estava certo.

Meu pai morreu sem saber que um dia seria avô. Morreu sem se importar com as filhas que tinha começado a criar, e que decidiu abandonar quando pensou que já tinha feito o bastante. Ele morreu se recusando a admitir qualquer erro e, pior ainda, se recusando a aceitar o nosso perdão.

Mas hoje, eu não quero falar só sobre esse pai do qual fiquei órfã quando ele faleceu, mais de mil quilômetros distante da família que renegou; hoje eu quero te contar, filha, sobre o pai que eu cresci amando e admirando, até ele sumir em um mar de ganância e ressentimento.

Seu avô biológico tem boa parte da culpa por eu ser quem sou. Essa mãe meio elétrica, sempre com a cara enfiada em algum livro, ou fazendo mais um curso, estudando mais uma coisa aleatória só porque acha legal.

Meu pai - o cara que eu um dia admirei - me dizia que comprar livros não era um gasto: era um investimento. E ele e a sua avó sempre me davam livros novos, incentivavam minhas leituras e me ouviam falar sobre as histórias por horas e horas, com sua avó sempre anotando os livros que eu mencionava, para me presentear nas datas especiais.

Ele também foi o primeiro a me falar sobre a importância de estudar história. Sobre como conhecer os fatos do mundo era fundamental, e como a história pregressa ajudaria a moldar o que estava por vir. Afinal, estudamos o passado para evitar repetir os mesmos erros (ai, a ironia de dizer isso em 2026, com tanta coisa acontecendo).

Todos os dias, durante as refeições, nós discutíamos política. História. Sociologia. E acabou que eu e a sua madrinha mantivemos esse costume, e amamos um bom debate. É divertido compartilhar conhecimentos, opiniões (sempre com respeito, claro).

Ah, outra coisa que eu puxei dele: sabe essa cara permanentemente séria, que faz parecer que eu estou brava com o universo, quando, na verdade, estou só tentando me lembrar se coloquei sal na carne do almoço? Pois é, herança do vovô. A mesma cara séria e naturalmente emburrada, que piora muito quando estamos emburradas de verdade. É, eu suspeito que você também tenha herdado um pouquinho disso. Culpe a genética.

E agora, eu preciso admitir que eu acabei transferindo a forma carinhosa como ele me chamava para você. Desde que eu me lembro, ele me chamava de gatinha. E acho que isso ficou tão enraizado, que eu comecei a te chamar assim também.

Eu era a gatinha do papai. Você é a gatinha da mamãe.

Engraçado que, depois de quase dez anos da morte dele, eu ainda consiga me lembrar do tom exato com que ele me chamava assim. Isso é amor, sabe? Porque nem os piores erros podem apagar o que foi bom, presente e verdadeiro, mesmo que por tempo limitado.

Passei uma boa parte da vida tendo medo de me tornar alguém como ele. Fomos parecidos em temperamento, opiniões (afinal, ele me criou). Quando eu estava grávida, isso ficou ainda pior. E se eu fosse uma péssima mãe? E se eu não soubesse educar, amar? Eu não sou nada parecida com a sua avó, que sempre foi bondosa e paciente.

Mas aí você nasceu e, de alguma forma, eu me tornei... Eu. Mais única, impossível. Uma mistura de tudo o que aprendi com os meus pais e avós, com o que vivi e com o que estudei. Uma soma das minhas convicções e regras morais, que vai te ajudar a construir a sua própria bússola um dia.

Demorei a entender que nossos pais não são o futuro da nossa jornada, e, sim, o passado dela. A estrada que nos trouxe até aqui. Como vamos seguir depende apenas de nós.

Gatinha, eu que temi tanto ter algo do seu avô, vou te passar coisas que ele me ensinou até sem perceber, porque fazem parte de mim. A soma dessas experiências criou a mamãe, e um pouco delas vai fazer parte de você também.

Agora eu falo com você, papai, onde quer que esteja. Feliz dia dos pais. Obrigada por ter me feito ser quem eu sou hoje, pelos bons e maus momentos que me formaram e me trouxeram até aqui.

Lamento que nunca tenha conhecido a sua neta, porque ela é incrível. Ela lembra tanto a minha irmã que faz sentido serem madrinha e afilhada.

E pai... Mesmo que eu tenha dito pouco isso enquanto você estava vivo, eu te amo. E sempre vou amar.



1 comentário

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Kacia Gonçalves
Kacia Gonçalves
11 de ago.
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Você é uma ótima mãe!

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Garota Milenar

Sou apenas alguém tentando encontrar o seu lugar, uma mãe tentando se redescobrir após a maternidade, uma mulher que tenta conciliar seus próprios sonhos e as demandas de um mundo que não aceita pausas.

Se você se identificou, fico muito feliz de compartilhar esse espaço com você. 

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