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O que acontece quando revisitamos um livro conforto? Minha releitura de "No Mundo da Luna"

  • 11 de jul.
  • 7 min de leitura

Vamos começar com um detalhe sobre mim: durante toda a minha adolescência, eu tinha certeza de que seria jornalista. Era o meu grande sonho, e eu lutei muito por ele.

Em 2015, eu estava cursando o meu primeiro ano na faculdade de jornalismo -e eu finalmente estava colhendo os frutos de tanto esforço, completamente apaixonada pela área. E foi aí que a Carina Rissi lançou No mundo da Luna.

Eu o transformei no meu livro favorito quase de imediato e o relia sempre que podia, principalmente quando estava triste, ou precisando de uma forma de voltar para aquele momento em que o sonho ainda parecia possível.

Aqui vai um spoiler: o meu sonho flopou. Eu nunca consegui terminar a faculdade de jornalismo, abandonei o estágio dos sonhos, enfim. No meio do caos, No mundo da Luna era para onde eu corria em busca de conforto.

Funcionou assim por muitos anos, até que, em certo momento, eu consegui me encontrar em novas leituras e passei alguns anos sem reler.

E aqui estou, cinco anos depois da minha última releitura de No Mundo da Luna, tendo uma síncope.


Arte do artigo "Cuidado ao reler o seu livro conforto da adolescência", com a capa do livro No Mundo da Luna, de Carina Rissi, ao centro.

Dados do Livro

Autor(a): Carina Rissi

Nº de páginas: 476

Gênero: Comédia Romântica

Editora: Verus

Lançamento: 2015

O livro é: Único

Trope: Enemies to Lovers


Luna Lovari Braga é uma jovem jornalista recém-formada, que trabalha na recepção de uma revista, comandada por Dante Montini, redator-chefe e uma lenda na área. Só que ele é um péssimo chefe, e nem mesmo consegue acertar o nome dela.

Ela vê sua grande chance de crescer quando a coluna do horóscopo fica vaga, e Dante a seleciona para assumi-la. O problema é que Luna não entende nada sobre astrologia, e acaba comprando um baralho cigano para fazer as tiragens e conquistar o seu caminho para o jornalismo de verdade.

O empecilho é seu chefe. Dante Montini começa a se inserir em sua vida de maneiras cada vez mais irritantes, e Luna começa a acreditar que suas leituras estão manipulando a realidade, e fazendo com que ela acabe se apaixonando pelo seu chefe.


Releitura de No Mundo da Luna - Vale a pena? (com spoilers)

Acho importante começar contextualizando a Luna: ela tem 24 anos, nenhuma experiência profissional realmente válida e acabou de se formar em jornalismo (que já não é uma área que paga exatamente bem). A coisa mais interessante sobre ela é que Luna e seu irmão Raul vêm de uma família cigana, e ver um pouco dessa cultura inserida no livro é bem legal.

Luna divide o apartamento com sua melhor amiga Sabrina, e trabalha na revista Fatos & Furos, que está lutando para sobreviver na era digital com a ajuda de Dante Montini, um grande redator-chefe e um chefe ríspido na mesma proporção em que é eficiente. Ela trabalha na recepção da revista há alguns meses, e ele nunca acertou seu nome, só a chama de Clara.

A revista tem sofrido perdas de profissionais para sua concorrente, a Na Mira, e a responsável pelo horóscopo se demitiu para trabalhar para a rival, deixando uma vaga aberta e dando a Luna a oportunidade de deixar de ser recepcionista.

Com essa mudança, ela passa a ter um acesso maior ao chefe, e acompanha em primeira mão quando a namorada supermodelo de Dante termina com ele após 6 anos juntos. E, para a surpresa de ninguém, ele consegue ser ainda mais babaca com ela.

O único ponto bom é que Luna conhece o fotógrafo freelancer, Viny, e se encanta por ele de cara. Os dois marcam um encontro, mas ele precisa adiar por causa de uma emergência jornalística - e Luna acaba encontrando Dante no bar e bebendo com ele.

E dormindo com ele.

Quando acorda na manhã seguinte com Dante, ela surta, afinal ele é seu chefe. E assume que foi um erro, um deslize e que nunca mais vai se repetir.

Até que se repete (muito).

Dante acaba se tornando vizinho de Luna, e isso cria uma proximidade forçada, que acaba facilitando para que se encontrem, principalmente porque ela o ajuda a cuidar da cachorrinha da irmã, a Madona.

E é aqui que eu comecei a ficar irritada com a Luna. Ela age como se dormir com Dante fosse um absurdo, e daria para entender se fosse apenas uma vez. Mas ela arma um barraco sempre, ao ponto do próprio Dante comentar que não sabe se vale a pena dormir com ela, já que ela sempre se comporta assim depois, como se não fosse responsabilidade dela também, que tudo tenha acontecido.

Luna parece ser muito mais infantil do que sua idade. Eu sei que 24 anos não é, exatamente, o auge da maturidade, mas ela também não deveria ser tão imatura e vitimista.

Outro ponto que me incomodou bastante foi a relação dela com o irmão Raul. Luna cai no estereótipo da irmã caçula, e o que se tenta mostrar é que os dois "brigam, mas se amam", porém eu só consigo ficar irritada com a forma como são dois bebezões (e isso porque Raul está prestes a se tornar pai, coitada da namorada dele).

A relação dela com o Dante avança, os dois se aproximam, ela se preocupa com ele, mas como um bom romance, ela se recusa a aceitar que está apaixonada por ele. Inclusive discute com ele por ciúmes bobos, interpreta mal uma centena de falas e mostra que é péssima em comunicação, mesmo sendo jornalista (socorro!).

Para mim, o Dante teve foi muita paciência, isso sim. Luna faz uma bagunça com seu horóscopo, sua insegurança e uma pitada de infantilidade. Na cabeça dela é mais fácil acreditar em magia do que no amor de Dante ser real, mesmo ele dando todos os sinais possíveis, só falta cair um raio na cabeça dela.

E sim, eu sei que os desencontros são parte da graça das comédias românticas, mas aqui as confusões começaram a parecer um pouco forçadas. De um lado, eu consigo entender, porque Luna é muito insegura. Basta um comentário aleatório da ex-namorada de Dante para ela surtar completamente e começar a criar um milhão de teorias sobre como ele vai acabar voltando para Alexia.

Aí, quando ela finalmente admite que está apaixonada, destrói tudo, perde o emprego e descobre que o próprio dono da Fatos & Furos está sabotando a revista, tendo um caso com a concorrente. Ela também acaba no meio de um assalto e vira notícia em todos os jornais da sua cidade.

O final, claro, trabalha para que os dois fiquem juntos. Dante funda a sua própria revista, a chama para trabalhar com ele, a pede em casamento (aceleradinho ele, né? Os dois estavam separados até então) e, no epílogo, descobrimos que Luna estava grávida dele, encerrando o livro com - tã dã - plot de gravidez.


Os personagens - alguém tem salvação?

Luna me irritou. Muito. Infantil, insegura, irritante e teimosa em excesso, ela não apresenta praticamente nenhuma evolução ao final da história.

O Dante surpreende. É mais maduro, embora um pouco difícil no começo. Mas ele, sim, se revela ao longo do livro e se mostra um cara sensível, apaixonado e cuidadoso. Claro, o homem que a maioria das mulheres gostaria de ter.

Sabrina, a amiga da Luna, desaparece um pouco no meio da história, mas tinha um bom potencial, é arquiteta, trabalha duro por sua carreira e está lá para a amiga (quase sempre).

Nando e Bia, vizinhos de Luna e cunhado e irmã de Dante, surpreendem para bem. Embora não apareçam tanto, quando o fazem é muito divertido. Nando é um péssimo cozinheiro e Bia é viciada em trabalho, e os dois são um casal fofinho, com interações muito divertidas.

Madona, a cachorrinha, é uma personagem à parte e uma candidata a protagonista, já que muita coisa só acontece graças a ela.

Vó Cecília é maravilhosa, com sua capacidade de perceber o que acontece ao seu redor e de ler Luna como um livro. Ela é sábia, ranzinza e divertida.

Raul, irmão da Luna, é um chato como ela. Imaturo, irritante e brigão, bem estereotipado, principalmente por ser formado em educação física. Em algum momento, Luna comenta que ele trabalhou duro para conquistar as coisas na vida, casa, carro, etc. Mas vendo as interações dele, difícil acreditar, viu.


Diálogos e maneirismos: o que ainda funciona?

A escrita da autora sempre me conquistou. É direta, simples e conversa com leitores de várias idades, apesar de um ou outro maneirismo que acontece nos diálogos, mas que está de acordo com as personalidades dos personagens.

A narrativa é feita em primeira pessoa, pelos olhos de Luna, o que deveria limitar a nossa análise das ações dos outros personagens, mas a verdade é que isso só me faz ter mais certeza de que a Luna é péssima em ler pessoas, e eu não sei como ela ainda vira jornalista.

Em muitas das "confusões" que ela faz sobre falas dos outros personagens, principalmente Dante, fica óbvio para o leitor que ela está enganada, mas não fica óbvio para ela mesma, o que é meio cansativo.

Mesmo assim, o humor do livro ainda me pega, e os capítulos são fluidos e bem divididos, com ganchos muito bons para prender a leitura (tanto que eu não conseguia parar de ler, ainda que estivesse irritada).


Removido para sempre dos favoritos?

A resposta é: não.

Apesar da irritação com o comportamento da Luna, lá no fundo eu ainda senti aquele quentinho no coração com a leitura, com essa pequena "volta no tempo" que o livro me traz, levando-me de volta a uma época completamente diferente.

Mas não vou conseguir ler com o mesmo olhar embotado pela magia de antes, que achava cada linha o auge da perfeição. Muito disso se deve, provavelmente, ao fato de que eu já não sou mais o público-alvo desse livro. O tempo passou para mim de uma forma que não passou para os personagens, óbvio, já que a história é estática.

Eu cresci mais do que a Luna, e tudo bem. Ao longo da vida, quantas vezes não vamos mudar e ser moldados pelas circunstâncias? Nada mais natural do que os nossos gostos se adaptarem de acordo com essas novas realidades que vamos construindo.

Ainda sou fã da Carina Rissi, e a admiro muito como autora nacional. Amo os livros dela, principalmente Mentira Perfeita e Amor sob Encomenda, e já fui muito fã da saga Perdida (aqui já é um caso diferente, eu até gosto bastante da protagonista, Sofia). Ela teve uma grande influência no meu desejo de me tornar escritora, e não amar todas as suas obras não diminui isso.

A conclusão a que eu queria chegar, afinal, é que algumas coisas são mais bonitas na nossa lembrança. Quando revemos algumas obras e situações, percebemos as coisas por uma nova ótica, e nem sempre os nossos gostos vão sobreviver ao teste do tempo. Às vezes, é melhor manter tudo apenas na memória para preservar o quentinho no coração.


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Garota Milenar

Sou apenas alguém tentando encontrar o seu lugar, uma mãe tentando se redescobrir após a maternidade, uma mulher que tenta conciliar seus próprios sonhos e as demandas de um mundo que não aceita pausas.

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